1 Coríntios 13 - Amor ou Caridade? Qual tradução está correta?

20/10/2014 15:21

Acredito que todos já notaram que algumas traduções da Bíblia trazem a palavra caridade ao invés de amor em 1Coríntios 13. Não há o que discutir que a palavra ‘amor’ é mais elegante e deixa o texto bíblico com um cunho poético. Perfeito, então, fica ótimo para usar no dia dos namorados, para fazer declarações de amor, no curso casados para sempre e por aí vai. Mas então porque algumas edições da Bíblia Sagrada trazem a expressão caridade?

Entre as grandes dificuldades encontradas para a tradução dos textos bíblicos, está a dificuldade na associação de algumas palavras que não tem significado exato na língua em que se quer traduzir; muitas vezes por questão cultural, em que uma palavra possui significados diferentes, ou seja,  que não tem o mesmo entendimento em culturas ou épocas diferentes.

Um bom exemplo disto é o verbo “poder”, que só no dicionário Aurélio possui mais de 50 definições. Quando se trata de regionalismo a questão fica ainda mais delicada. Por exemplo, eu moro em Goiás, se eu chamar uma moça (mulher) de ´rapariga,’ ficarei com sérios problemas por ter desrespeitado a mesma. Já no Rio Grande do Sul é normal usar a palavra ‘rapariga’ para se referir a uma menina ou moça. Então caso alguém esteja lendo o texto de um gaúcho para um goiano deve explicar que rapariga não é um xingamento e sim um mero substantivo comum, ou então eu mudaria de ‘rapariga’ para ‘moça’ ou ‘menina’, pois assim o texto teria o entendimento correto.

Mesmo com este simples explicação fica fácil entender a dificuldade das Sociedades Bíblicas do mundo todo em traduzir os textos bíblicos para os diversos povos e culturas. Voltando à nossa discussão sobre amor ou caridade, vamos à definição do dicionário[1]:

  • Amor: Sentimento que induz a obter ou a conservar a pessoa ou a coisa pela qual se sente afeição. || Afeição forte por outra pessoa.|| Disposição dos .afetos para querer ou fazer o bem a algo ou alguém
  • CaridadeBoa disposição do ânimo para com todas as criaturas. || Pena que se sente pelos sofrimentos alheios.

Antes de comentar vamos à Bíblia em I Coríntios 13:04

  • ARA[2]“O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece,”
  • ARC[3]: “A caridade é sofredora, é benigna; a caridade não é invejosa; a caridade não trata com leviandade, não se ensoberbece,”
  • NVI[4]: “O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha.
  • Bíblia de Jerusalém[5]: “A caridade é paciente, a caridade é prestativa, não é invejosa, não se ostenta, não se incha de orgulho.”

Pela definição do dicionário, podemos aceitar facilmente que tanto amor, quanto caridade atende à acepção expressiva do texto bíblico, ou seja, não interferem em sua significância, e\ou não traz duplo sentido ao texto. Pessoalmente prefiro usar a palavra amor, por ser uma palavra de fácil entendimento e por trazer maior apelo emocional, e é tão bom ouvir sobre o amor, não é mesmo? Por outro lado caridade é algo que expressa ação e não apenas sentimento, ou seja, amor é algo que sentimos enquanto caridade é algo que praticamos.

O texto grego diz[6]: “η αγαπη μακροθυμει χρηστευεται η αγαπη ου ζηλοι η αγαπη ου περπερευεται ου φυσιουται”. A palavra em questão é "αγάπη" (ágape)

Alguns comentaristas bíblicos como F. Davidison defendem que a tradução de agape para caridade está imprecisa, devido a implicação atual desta palavra na língua portuguesa. Ainda Segundo Davidson, amor, no pensamento do apóstolo, é uma atitude do coração, da mente e da vontade. Deve ser distinto de mero sentimento e, naturalmente, de afeição humana, como é ordinariamente conhecida. O amor cristão é possível somente em quem vive no poder de Cristo habitando no íntimo ser.

Francis Nichol completa esta ideia dizendo que “amor" em seu sentido mais sublime reconhece um pouco de valor em a pessoa ou o objeto amado; amor [este][7] que se apoia em um princípio e não em emoções; é o amor redentor da Divindade pela humanidade perdida. Francis também discute a tradução caridade, e dizendo que a palavra "caridade" não é o suficiente para indicar a amplitude do interesse no bem-estar de outros, que se acha no vocábulo ágape. A palavra "amor" é muito superior; este "amor" (ágape) não deve confundir-se com o que às vezes se chama "amor", sentimento doentio e emocional que tem seu centro no eu e nos desejos egoístas. Mas ágape enfoca o interesse e a preocupação em outros, e produz uma conduta correta.

Se usarmos a palavra caridade ao invés de amor no texto, certamente entenderemos melhor o que é “agape”. Devido ao senso comum de “amor” em nossa cultura, somos tendenciosos a pensar que se trata de um simples afeto, sentimento. No entanto, não se trata de um sentimento, senão de uma atitude, uma postura do ser humano em relação ao outro. Para Cripriano “O trecho fala diretamente da caridade para com o próximo; mas ela pressupõe o amor de Deus, como o motivo último pelo qual o cristão deve amar ao próximo. É uma virtude essencialmente teológica, e por isso vem colocada ao lado da fé e da esperança[8].”

Ainda assim, amor é uma tradução melhor do grego ágape (αγάπη) do que “caridade”. Ao traduzir do grego para o latim[9], Jerônimo preferiu caritas[10] em lugar de amor, a fim de evitar o que julgava ser uma conotação sensual neste último termo. John Wycliffe[11] transcreveu caritas como caridade, daí o uso da palavra em muitas versões.

Do ponto de vista teológico defendo que a tradução caridade é mais adequada, pois o amor de Deus por nós foi representado pela ação, conforme João cap 03 vs. 16: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Do mesmo modo que caridade, exclui totalmente a ideia de paixão, ou um simples sentimento. No entanto, dado o emprego de amor em nossos dias, a tradução para “amor” se impõe vitoriosamente. Quando saímos do simples sentimento e, transformamos amor em ação (caridade) cumprimos o ensinamento de Jesus em Mateus cap. 25 vs. 40 “Em verdade vos digo que sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, ainda que dos mais pequeninos, a mim o fizestes.[12]

 

Referências

Dicionário Priberam da Língua Portuguesa 2008-2013. Disponível em

DAVIDSON, F.F. O Novo Comentário da Bíblia. Editora Vida Nova

NICHOL, Francis. Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia. Casa Publicadora Brasileira       

CIPRIANI, Settimio. Primeira Epístola aos Coríntios. In: BALLARINI, T. Introdução à Bíblia: com Antologia Exegética, Vol. 1: 1 e 2 Coríntios. Petrópolis, RJ. Vozes. 1974. Pp. 251-339.

 


[1] Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

[2] Almeida Revista e Atualizada (Socidade Bíblica do Brasil)

[3] Almeida Revista e Corrigida (Socidade Bíblica do Brasil)

[4] Nova Versão Internacional (Sociedade Bíblica Internacional)

[5] Editora Paulus. Tradução Católica

[6] Conforme Textus Receptus. Também disponível em

[7] Grifo do autor

[8] CIPRIANI, SETTIMIO. Primeira Epístola aos Coríntios. In: BALLARINI, T. (Diretor). Vozes. Pp.322

[9] Bíblia Vulgata; também disponível em < http://www.drbo.org/>

[10] Conforme Vulgata. 1 Coríntios 13:4 “Caritas patiens est, benigna est. Caritas non aemulatur, non agit perperam, non inflatur,”

[11] John Wycliffe (1320 – 1384 d.C.) foi professor da Universidade de Oxford, teólogo e reformador religioso inglês, considerado precursor das reformas religiosas que sacudiram a Europa nos séculos XV e XVI

[12] Conforme Bíblia Almeida do Sec. XXI

 

Por: Ricardo Moreira Braz do Nascimento